por José Ricardo de Souza*
Quando o estudante sérvio Gravilo Princip assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro em 28 de junho de 1914 na cidade de Saravejo, na Bósnia, é provável que ninguém imaginava que aquele atentado seria o estopim de uma grande guerra, que se arrastou por quatro anos (1914-1918), deixando 20 milhões de mortos, marcou a estreia da metralhadora, do submarino e dos gases tóxicos nas guerras, e mudou o mapa geopolítico mundial com o fim de impérios como o Austro-húngaro e o surgimento de potências como os Estados Unidos (na verdade, o grande vencedor da Primeira Guerra Mundial).
O mesmo raciocínio é válido em 1939 quando tropas nazistas ultrapassaram a fronteira da Polônia. Ninguém que viveu naquela época imaginava que seria o começo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e que nunca mais o mundo seria o mesmo após os bombardeios atômicos sobre Hiroshima e Nagasaki e a possibilidade real da aniquilação da espécie humana.
Voltando para o presente, podemos nos perguntar: estamos vivenciando o começo da Terceira Guerra Mundial após os ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel contra o regime teocrático xiita iraniano em 28 de fevereiro de 2026 que resultou na morte do líder máximo Ali Khamenei e de dezenas de membros do seu governo? Ou será que esta guerra começou ano passado quando os Estados Unidos conseguiram bombardear a usina nuclear iraniana de Fordow em 221 de junho de 2025?
Estabelecer marcos históricos nunca foi uma tarefa fácil para nós, historiadores, porque a História, ou melhor o processo histórico é contínuo, não avisa quando começa e quando termina uma fase, uma era ou um período. E ainda qualquer tentativa de periodização pode ser questionada.
O que podemos afirmar, sem receio de errar, é que o conflito atual entre Estados Unidos e Irã carrega consigo elementos presentes nas duas grandes guerras mundiais (assustador isso, não?) com uma pitada tecnológica do século XXI (drones e uso de IA) capazes de fazer a panela de pressão geopolítica Mundial explodir a qualquer momento.
Qualquer manual de História vai citar que algumas das origens da Primeira Guerra Mundial foram o choque de imperialismo, a corrida armamentista, a busca e controle de novas fontes de matérias-primas e os chamados conflitos localizados (Crise nos Balcãs e a Questão do Marrocos). Qualquer semelhança com o antigo embate entre Irã e Israel, o desejo dos Estados Unidos de controlar o petróleo iraniano, o fortalecimento da indústria bélica iraniana que busca desenvolver sua própria bomba atômica e o choque entre as pretensões de Trump e do agora finado Khamenei a respeito do Oriente Médio não são meras coincidências com o cenário geopolítico mundial pré-1914 ou do início do século XX lembrando que o estopim da Primeira Guerra Mundial foi um atentado que matou um chefe de Estado, ou melhor futuro chefe de Estado.
Comparações entre fatos e personagens históricos fora da época em que viveram sempr Khamenei e será algo arbitrário e bem discutível, quando não, algo bem anacrônico. Mas o que dizer das semelhanças e coincidências entre a atual politica externa norte-americana de Trump e o expansionismo nazista de Adolf Hitler no continente europeu nos anos 30 do século passado? Resguardadas as devidas proporções de tempo e de espaço Trump e Hitler redesenham o mapa geopolítico a partir da lógica do fortalecimento belicoso e militarista de seus estados nacionais, pouco se importando se para isso o unilateralismo dos organismos internacionais fosse um empecilho. Trump ignora a ONU, tanto quanto Hitler ignorava a Liga das Nações.
Já preciso me preocupar em comprar meu bunker ou ainda é cedo para isso? Quando devo começar a estocar alimentos e provimentos em casa? Quem vai detonar a primeira bomba nuclear? A China e a Rússia continuarão assistindo o circo, ops, ou melhor o mundo pegando fogo de camarote? (vai ver Putin já tem a Ucrânia para se preocupar e Xi Jinping deve andar às turras com Tawan esperando o melhor momento para anexá-la).
Estamos assistindo passivos, anestesiados com tantas notícias e acomodados com o discurso fundamentalista pentecostal ao começo do fim da espécie humana na Terra? Temos mais dúvidas que certezas. A roda da História tem rodado mais rápida do que o giro das metralhadoras na Primeira Guerra Mundial. O cenário é assustador, as coincidências falam mais alto do que as sirenes alertando os bombardeios e o mundo civilizado construído em alguns milênios pode mesmo estar com seus dias contados.
* O autor é professor da rede pública estadual de ensino, historiador e escritor. Sócio honorário do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), e sócio-fundador da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP). Criador do projeto Muita História pra Contar.