por José Ricardo de Souza*
A cidade do Paulista, localizada na região metropolitana do Recife, ficou conhecida como a Cidade das Chaminés por causa de seu passado fabril marcado pela presença da Companhia de Tecidos Paulista (C.T.P.) que durante décadas com suas três fábricas desenhou o formato urbano da cidade com suas vilas operárias, com os jardins e a casa-grande do coronel, e a Igreja de Santa Isabel Rainha de Portugal, localizada no centro da cidade, e empregou milhares de trabalhadores, em sua maioria migrantes de outras cidades nordestinas.
Nas décadas de 70 e 80 do século passado, a atividade têxtil iniciada pela família Lundgren já dava seus sinais de exaustão e decadência, embora fosse mantida por basicamente três grandes empreendimentos: a Hering, a Tecanor e a Santista, localizadas no polo industrial de Paratibe. A antiga COHAB (Companhia Habitacional do Estado de Pernambuco), atual Perpart (Pernambuco Participações de Investimentos S/A) apoiada pelo extinto B.N.H. (Banco Nacional da Habitação) construiu vários parques habitacionais na cidade, como os Maranguapes I e II, Arthur Lundgren I e II, e para além do Paulista, já em Abreu e Lima, os Caetés I, II e III.
Em ambas as expansões demográficas fica clara a demanda por mão de obra farta e barata para trabalhar nas fábricas têxteis da cidade, ao qual foi suprida com o aumento populacional de pessoas egressas, em sua maioria, de pessoas que vieram do meio rural, portanto de cidades interioranas, em busca oportunidades no mercado de trabalho proporcionado pela indústria têxtil paulistense. O crescimento populacional, seja nas primeiras décadas ou nos anos 70-80 do século XX, fez da cidade do Paulista um importante centro urbano, orbitando em torno das cidades de Recife, Olinda e Igarassu, terminando o século passado como uma grande cidade-dormitório, onde a maioria de seus habitantes trabalham e/ou estudam fora do Paulista.
Segundo estimativas do último censo demográfico (2026), Paulista possuí 367 mil habitantes, devendo ultrapassar os 400 mil moradores até 2036, impulsionada pela expansão imobiliária e pela conurbação com Recife e Olinda, a um ritmo de crescimento de 0,8% a 1% ao ano. Para uma cidade que possuía pouco mais de 340 mil habitantes em meados do século XX, esse crescimento populacional é acelerado e fez com que Paulista deixasse de ser uma típica cidade interiorana para ser uma cidade cosmopolita, multifacetada e diversificada.
A demanda por infraestrutura surge como um dos principais desafios para os próximos anos da outrora cidade das chaminés, seja por questões de abastecimento de água, energia elétrica, saneamento urbano, ou por conta da mobilidade urbana, numa cidade já saturada de vias terrestres e veículos automotivos, afora é claro, a precariedade do serviço de transporte urbano. Apenas com estes elementos já seria o suficiente para repensar o modelo urbanístico da cidade com suas estruturas verticalizadas dominando o ambiente urbano com seus condomínios fechados.
O debate fica ainda mais sensível quando se atenta para a questão ambiental paulistense, em especial ao que ocorre na Mata do Frio, que vem sendo devastada, mesmo sendo área de proteção ambiental. O avanço da urbanização vem também acompanhado do aterramento das áreas de várzea e de manguezais, impactando o ecossistema local, cujos reflexos mais evidentes são a presença de animais nativos em áreas urbanas, como jacarés, capivaras e cobras. A cobertura vegetal da outrora cidade dos eucaliptos (espécie rara atualmente da flora paulistense) diminui a olhos vistos sem uma intervenção do poder público local.
A Paulista de 2026 cresce, ou melhor, incha desordenadamente, sem zelo com o meio ambiente e rumo a sérios problemas causados por gente demais e serviços de menos. Sem uma sensibilização do poder público local e uma articulação da sociedade civil organizada é impossível pensar numa Paulista voltada para o bem-estar da maioria de seus habitantes que precisarão de muito mais opções de serviços como água e luz, mas também de escolas, universidades, centros médicos, áreas de lazer e convivência comunitária, etc.
Paulista deve consolidar-se como uma das cinco maiores cidades de Pernambuco na próxima década, mas com um desafio a ser vencido: equilibrar o crescimento populacional com qualidade de vida. A crescente expansão imobiliária exige políticas públicas eficientes para equilibrar qualidade de vida com densidade urbana, e infraestrutura com sustentabilidade. Somente assim poderemos pensar numa Paulista forte, pulsante, potente e pronta para a chegada de seu centenário que se aproxima (em 2035).
* O autor é historiador, professor da rede pública estadual e escritor. Membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP), sócio honorário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), sócio fundador do Instituto Histórico, Geográfico, Arqueológico e Antropológico da Cidade do Paulista (IHGAAP) e da União Brasileira dos Escritores (secção Paulista). Criador do Projeto Muita História pra Contar. @josericardope01 nas principais redes sociais (Instagram, Threads, X, TikTok e Kwai).