por José Ricardo de Souza*
No mundo inteiro hoje, dia 11 de setembro, serão lembrados os vinte e cinco anos dos ataques terroristas aos Estados Unidos da América, quando dois aviões tomados por terroristas foram direcionados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center na ilha de Manhattan (em Nova York), um terceiro contra o Pentágono, e um quarto foi derrubado pelos próprios tripulantes caiu em um campo próximo à cidade de Shansksville, no estado da Pensilvania.
A autoria dos atentados em série foi reivindicada por Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda, uma organização terrorista de cunho fundamentalista islâmica. As cenas dos ataques puderam serem assistidas ao vivo por milhares de pessoas em centenas de TVs espalhadas pelo planeta. Foi o pior ataque externo aos Estados Unidos desde o ataque nipônico de Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial em 7 de dezembro de 1941
No entanto, um outro onze de setembro nunca é citado nos livros de História ou lembrado pelos grandes noticiários internacionais, e sequer é mencionado nas efemérides desta data. Apagado, esquecido, invisibilizado, este outro onze de setembro é o começo de uma história nefasta, dolorosa e tortuosa de um país da nossa querida América Latina. Foi nesta data fatídica que se instalou no Chile a ditadura de Augusto Pinochet, um das mais cruéis e sanguinárias do continente, marcada por prisões, torturas, assassinatos e muita repressão.
Era manhã de 11 de setembro de 1973, e o Palácio de La Moneda, no centro de Santiago, capital do Chile, estava sob ataque. Tanques e aviões Hawer Hunter da Força Aérea bombardavam o edifício cercado por tanques. O presidente Salvador Allende chegou por volta de 7:30h, acompanhado por assessores. Alguns minutos antes das dez horas, tanques militares cercaram o palácio e às 10:15h Allende fez seu último discurso pelas ondas da Rádio Magallanes. Em suas palavras ecoava a voz de um líder eleito democraticamente pelo povo e que vivia seus últimos momentos de vida. A defesa da democracia foi sua última bandeira a ser levantada. Ele sabia que não sairia vivo dali. A voz de um cordeiro a ser imolado pelo pecado social de um sistema que privilegiava poucos privilegiados e excluía a maioria era num tom de despedida.
No começo da tarde, Allende pediu para que seus apoiadores abandonassem La Moneda, e por volta de 14:20h seu corpo é encontrado sem vida dentro do palácio. A versão oficial: suicídio. A versão oficiosa: assassinato. A verdade? Sufocada entre a disputa de narrativas entre defensores do golpe de Estado e aqueles que lutam para que a memória dos mortos e desaparecidos da ditadura chilena não caíam no esquecimento.
As chamas que arderam na fachada do palácio de La Moneda, queimando até mesmo a bandeira chilena, eram os augúrios do que estava por vir nos próximos anos no Chile: mais de 3000 pessoas foram mortas ou desapareceram, 30000 pessoas foram torturadas e 200000 chilenos foram forçados ao exílio. O país viveu neste período prisões em massa, execuções sumárias, censura imediata e um clima de terror coletivo.
O Estádio Nacional de Santiago foi transformado pelos golpistas em centro de detenção, onde prisioneiros eram interrogados e torturados, dentre eles o caso mais emblemático foi o do cantor, poeta, compositor e ativista chileno Víctor Jara, símbolo da Nueva Canción Chilena. Jara foi preso logo após o golpe de 11 de setembro e levado ao Estádio Chile, que hoje leva seu nome. Teve as mãos fraturadas, foi espancado e humilhado. Em 16 de setembro de 1973 foi assassinado com mais de 40 tiros e seu corpo abandonado nas ruas de Santigo. Sua morte se tornou símbolo da violência da ditadura chilena e suas canções, como "Te Recuerdo Amanda" e "El Dercho de Vivir em Paz" são hinos da luta por liberdade e justiça social.
Durante 15 anos, o Chile viveu seus piores momentos, com um governo autoritário e aliado dos Estados Unidos da América. Não por acaso, muitos dos golpes militares que aconteceram aqui na América Latina foram planejados nas salas e dependências do World Trade Center por militares, banqueiros e empresários ianques. A ditadura de Pinochet terminou em 5 de outubro de 1988, quando num plesbicito 55,99% da população votaram "Não" à sua permanência no poder. Após a presidência, ele continuou como como comandante do exército até 1988 e depois como senador vitalício até sua morte em 10 de dezembro de 2006, aos 91 anos, na capital chilena.
É muito provável que hoje, 11 de setembro de 2026, você ouça alguma notícia sobre as celebrações às vítimas dos ataques terroristas aos Estados Unidos, mas dificilmente alguém falará de Salvador Allende, do ataque ao palácio de La Monera, do assassinato cruel de Víctor Jara ou das centenas de mortos nos cárceres chilenos da ditadura de Pinochet. O que aconteceu no Chile precisa ser contado, para que não seja repetido.
Pela memória dos mortos e desaparecidos políticos da ditadura de Augusto Pinochet e pelo 11 de setembro chileno, está é uma história que precisa ser contada! A exaltação de um fato histórico e o esquecimento de outro fato histórico, ambos importantes, que aconteceram na mesma data (em anos diferentes) mostra que a escrita da História pode ser seletiva, mas os fatos que a ela remetem teimam em sair do ostracismo a que foram condenados. Não por medo, mas por coragem. Com a ousadia de dar voz àqueles que tiveram sua vida ceifada em nome da democracia chilena.
*Prof. José Ricardo de Souza, da rede pública estadual de ensino, historiador, e escritor. Membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP), sócio honorário do Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico Pernambucano (IAHGP) e fundador do Instituto Histórico, Geográfico, Arqueológico, Antropológico da Cidade do Paulista (IHGAAP). Criador do projeto Muita História pra Contar. @josericardope01 nas principais redes sociais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário