sexta-feira, 17 de julho de 2026

⛈️🌊 O RECIFE E A GRANDE CHEIA DE 1975 ☔️⛈️

Por José Ricardo de Souza*

Era madrugada do dia 17 para o dia 18 de julho de 1975, portanto há 51 anos, quando a cidade do Recife despertou mais cedo, assustada e em desespero. Não que os recifenses não soubessem conviver com as águas, fossem elas fluviais, dos rios Beberibe e Capibaribe, ou marítimas, que banham seu litoral deixando praias famosas como a de Boa Viagem; mas desta vez eram as águas vindas dos céus que atormentavam os moradores da "Veneza brasileira".

A quantidade superior das chuvas provocava, e ainda provoca, problemas como deslizamentos de terras nos morros, alagamentos e principalmente enchentes. O Recife convivia com isso há séculos, mas o que aconteceu em 1975 superou todas as expectativas, deixando 80% da cidade sob as águas.

O resultado disso foi uma das maiores tragédias urbanas da história recente do Recife, que deixou 350 mil desabrigados (cerca de um terço da população da cidade na época, segundo o IBGE), e 107 pessoas mortas.

Foram 31 bairros e 370 ruas atingidos pelo transbordamento do Rio Capibaribe, por conta das fortes chuvas. Não à toa, os bairros que ficam na bacia do curso-d’água – Caxangá, Iputinga, Cordeiro, Casa Forte, Afogados, Madalena entre outros – foram os mais atingidos.

Ruas inteiras ficaram embaixo d’água, houve desabamentos, milhares de flagelados, e o pior: vidas, de todas as classes sociais, foram interrompidas. O prefeito do Recife, Antônio Farias, decretou estado de emergência na cidade e “providenciou a abertura de crédito especial para fazer face às despesas de assistência aos flagelados”.

1.000 km de ferrovias foram destruídas, pontes desabaram, casas foram arrastadas pelas águas. 40% dos postos de gasolina da cidade foram inundados; o sistema de energia elétrica foi cortado em 70% da área do município; quase todos os hospitais recifenses ficaram inundados, tendo o depósito de alimentos do Hospital Pedro II sido saqueado. Por terra, o Recife ficou isolado do resto do país durante dois dias.

Os laudos do Instituto de Medicina Legal (IML), digitalizados e organizados pela equipe do Arquivo Público há 10 anos, ajudaram a reconstruir o drama e a contar histórias sobre as fatídicas horas de fúria do rio, entre a madrugada do dia 17 e o início da tarde do dia 18 de julho daquele ano.

A temível enchente matou de várias formas. Foram identificados 32 afogamentos, 13 casos de morte súbita – a maioria por ataque cardíaco – 28 mortes naturais (muitas por doenças gastro-intestinais, causadas pelo consumo de água contaminada) e até mesmo quatro suicídios, possivelmente motivados pelo pânico de ver a cidade sob as águas.

O analista de sistemas e escritor, Altemar Pontes lançou em 2025 a obra "1975 Recife Afundou em Silêncio: mas uma casa ficou de pé". O livro costura personagens fictícios e vozes reais de quem viveu a lama, com ilustrações do próprio autor. Apesar de ter havido muita pesquisa para construir o novo livro, não é a história que ele conta, mas as estórias sob a forma de um romance.

Na manhã do dia 21 de julho, quando as águas baixaram e a população começava retomar a vida, o pânico tomou conta das ruas do Recife, em decorrência de um boato de que a Barragem de Tapacurá havia estourado e que a cidade seria arrasada. A Polícia Federal investigou a origem, nunca descoberta, do boato. O pânico durou cerca de duas horas, mas seu momento de maior intensidade teve cerca de 30 minutos. Mais de 100 pessoas foram atendidas nos serviços de emergência dos hospitais.

25 municípios da bacia do rio Capibaribe também foram atingidos pela grande cheia de 1975. O prejuízo estimado na época ficou em torno de 1,5 bilhão de cruzeiros. Outra grande enchente aconteceu em 1977 (1° de maio) deixando 16 bairros do Recife embaixo d'água.


Para evitar este tipo de desastre natural, foi inaugurada em 29 de maio de 1978 a Barragem de Carpina, com 950 metros de comprimento, 42 metros de altura, e capacidade para armazenar 295 milhões de m3 de água. Além disso foi feita a retificação da calha fluvial do rio Capibaribe na área urbana (alargamento e ampliação do vão das pontes do Derby e Torre) e ainda a construção de barragem de contenção sobre o rio Goitá.

Os reservatórios que compõem o Sistema de Contenção de Cheias do Rio Capibaribe, são monitorados diariamente pela equipe técnica da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) e da Compesa. Eles protegem os 45 municípios instalados ao longo do leito do Capibaribe e, juntos, podem reter cerca de 750 milhões de m³ de água.

A Grande Cheia de 1975 permanece na memória afetiva e coletiva dos recifenses, seja por aqueles que viveram ela de perto ou por pessoas que até hoje ouvem os relatos de uma madrugada de medo, pânico e muita água.

* O autor é professor da rede pública estadual de ensino, historiador, e escritor. Sócio honorário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP) e membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP). Criador do projeto Muita História pra Contar. @josericardope01 nas principais redes sociais (Instagram, Threads, X, TikTok, e Kwai).

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